Por João Alberto da Silva - fotógrafo
Se você começou a orçar fornecedores para o seu evento agora, deve ter levado um susto. Como pode um fotógrafo cobrar R$ 2.500 e outro cobrar R$ 8.000 pelo "mesmo serviço"? À primeira vista, parece que o mais caro está apenas "querendo ganhar mais". Mas o entendimento dessa diferença vai muito além.
Você está assustada com os preços que está orçando hoje? Talvez você não saiba, mas os preços hoje estão menor que no passado. E não tem nada a ver com a lei de oferta e procura, e sim com um conjunto de fatores que, somados, resultam em fenômeno silencioso que só cresceu nos últimos anos.
O paradoxo econômico exige cautela. A redução de preços pode parecer uma boa notícia, mas, se não for bem avaliada, pode resultar em desfechos catastróficos. Nem de longe você deseja isso para o seu casamento ou para os 15 anos da sua filha.
Contextualizando o cenário
A inflação é persistente. Insumos dobraram de preços nos últimos anos. O poder de compra diminuiu, e a economia está em recessão. Mas há um fato estranho, que não apresenta qualquer coerência com a atual realidade econômica.
Parte dos fotógrafos que cobravam R$ 15.000 há 15 anos, hoje lutam para fechar contratos por R$10.000, talvez R$ 5.000. Há ainda os que cobram R$2000, R$1000, R$500, R$300, R$150, talvez R$50.
Falo de fotógrafos, mas tenho observado o mesmo fenômeno entre cerimonialistas, Djs, Buffets e tantos outros fornecedores. Mas, por quê?
Não, o mercado não se "barateou". Na verdade, ele se diluiu. Ocorre que o profissional em tempo integral hoje convive com fatos e comportamentos que estão que estão fragilizando o setor.
Se fosse uma redução saudável de preços, teríamos muito a comemorar. Mas não é esse o caso. Separei abaixo três forças presentes no atual contexto econômico que nos ajudam a entender melhor o que está acontecendo
1. A "Democratização" Superficial do Conhecimento
Fornecedores de evento atuam em profissões que não demandam formação específica ou regulamentação. Com as redes sociais, o acesso ao conteúdo foi democratizado, mas de forma rasa.
Habilidades que, no passado, exigiam formações técnicas e profissionalizantes, hoje são buscadas em tutoriais soltos. O resultado é um ingresso maciço de profissionais sem uma curva planejada e monitorada de aprendizado, o que gera conhecimentos vagos e superficiais.
2. A Muleta Tecnológica e a IA
A modernização tornou "desnecessárias" certas habilidades humanas vitais. No passado, o fotógrafo dependia de sólidos conhecimentos de fotometria. Hoje, o Live View e a automação tornaram essa necessidade obsoleta para muitos.
De um lado, avanços significativos. De outro, o "empreguiçamento mental". A ausência de estímulos para desenvolver técnicas profundas faz com que o profissional se torne refém da tecnologia, e não mestre do seu ofício.
5. A deficiência na Precificação e o "biqueiro"
A gestão empreendedora e a precificação correta costumam vir de formações assistidas. Na aprendizagem espontânea de vídeos curtos, esse pilar é ignorado. O resultado: precificação por achismos. Muitos nivelam seus preços pelo que os outros cobram, sem saber se o concorrente está pagando as contas ou caminhando para a falência.
Soma-se a isso o Ciclo de Insolvência Pós-Pandemia. A paralisação expulsou veteranos e abriu as portas para os "biqueiros" — pessoas com emprego fixo que usam os sábados para complementar a renda. Sem dedicação exclusiva e sem os custos de uma estrutura profissional para manter, eles puxam o teto do mercado para baixo.
Conclusão
A queda de preços é uma realidade. Ela pode parecer benéfica, mas esconde riscos que você preferiria não correr.
Se você está orçando, continue. É parte do planejamento. Mas não se iluda: planilhas são guias, mas nunca as únicas aliadas na escolha do seu fornecedor. Os preços são diferentes? Investigue mais a fundo.
Não julgue o profissional como caro ou barato apenas pelo comparativo. É totalmente possível que ambos os orçamentos sejam justos dentro das condições que cada um oferece. Talvez o supostamente "mais caro" seja proporcionalmente mais barato quando confrontado com a segurança e a entrega real que ele proporciona.
Lembre-se: cotar é uma ação inteligente para uma commodity. Mas o seu evento não é uma commodity. Limitar sua pesquisa a uma mera cotação pode ser o primeiro passo para amargas frustrações futuras.